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ONU encontra indícios de que Estados Unidos cometeram crimes de guerra no Irão

ONU encontra indícios de que Estados Unidos cometeram crimes de guerra no Irão

As Nações Unidas revelaram que existem indícios para acreditar que os EUA cometeram crimes de guerra no Irão nos ataques a uma escola e a uma instalação desportiva. A ONU constatou ainda que as autoridades iranianas cometeram crimes contra a humanidade durante a repressão violenta dos protestos antigovernamentais.

Cristina Sambado - RTP / Adicionar como fonte informativa
West Asia News Agency via Reuters

A ONU afirmou, esta quinta-feira, que havia fundamentos razoáveis para acreditar que os Estados Unidos estiveram por trás de dois ataques militares contra uma escola e uma instalação desportiva no Irão, em fevereiro, e que tais ações constituíram crimes de guerra.

A missão das Nações Unidas constatou ainda que as autoridades iranianas cometeram crimes contra a humanidade durante a repressão violenta dos protestos antigovernamentais.

As conclusões, apresentadas num novo relatório da Missão Internacional Independente de Apuração de Factos sobre o Irão — a submeter ao Conselho de Direitos Humanos da ONU em Genebra —, analisaram a conduta dos EUA durante o conflito com o Irão iniciado em fevereiro e a resposta do governo iraniano à onda de agitação nacional que começou no final de dezembro.

As missões permanentes do Irão e dos EUA em Genebra não responderam imediatamente aos pedidos de comentário da Reuters.

As autoridades norte-americanas já tinham declarado anteriormente que as operações militares são conduzidas em conformidade com as leis dos conflitos armados, enquanto o Irão tem rejeitado consistentemente as alegações de violações sistemáticas de direitos.Ataque à escola em Minab
Os peritos da ONU afirmaram ter encontrado fundamentos razoáveis para acreditar que as forças norte-americanas foram responsáveis por um ataque à Escola Primária Shajareh Tayyebeh, na cidade de Minab, onde morreram mais de 150 pessoas — incluindo cerca de 120 crianças em idade escolar —, segundo as autoridades iranianas.A missão concluiu que a ação constituiu um ataque indiscriminado que causou mortes de civis e danos em infraestruturas civis, configurando um crime de guerra ao abrigo do direito internacional.

Segundo o relatório, os EUA basearam-se em informações de inteligência que sugeriam a presença de um comandante militar iraniano de alto escalão no local, mas falharam em verificar adequadamente os dados antes de lançar o ataque.

Os investigadores afirmaram que a falha em atualizar as informações de inteligência sobre o alvo e em confirmar se o edifício era um objetivo militar representou algo para além de mera negligência.

"Em vez disso, os EUA direcionaram os ataques contra o edifício da escola estando cientes de um risco substancial de atingir um alvo civil e agindo de forma imprudente quanto à possibilidade de que tal ocorresse".

Em junho, o presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou que "ninguém" atacou deliberadamente uma escola para raparigas no Irão, em fevereiro, citando uma investigação sobre o incidente. A Reuters noticiou inicialmente que uma investigação interna preliminar das forças armadas dos EUA indicava que as forças norte-americanas eram provavelmente responsáveis pelo ataque fatal em Minab, no sul do Irão.
Desde então, o Pentágono elevou o nível da investigação, mas não divulgou quaisquer conclusões preliminares.


Os peritos da ONU afirmaram que a escola era um alvo civil claramente identificável e não encontraram provas de que estivesse a ser utilizada para fins militares.


Os especialistas chegaram a uma conclusão semelhante em relação a um ataque contra um centro desportivo em Lamerd. O relatório apontou que o ataque danificou edifícios residenciais e uma escola nas proximidades, além de matar e ferir 22 civis. Concluiu-se que o ataque foi indiscriminado e, por isso, constituiu um crime de guerra.

O Comando Central dos EUA declarou, em março, que as forças norte-americanas não realizaram ataques na cidade de Lamerd nesse dia.
Crimes contra a humanidade
A população civil iraniana encontra-se encurralada entre uma repressão estatal "extrema" e o impacto da guerra no Médio Oriente, desencadeada a 28 de fevereiro por ataques israelo-americanos, alertaram ainda os investigadores da ONU esta quinta-feira.Os civis "estão encurralados entre graves violações dos direitos humanos e crimes contra a humanidade cometidos pelo seu próprio governo e o conflito mortal que opõe o país aos Estados Unidos e a Israel", declarou a Missão Internacional Independente de Apuração de Factos sobre o Irão.

No seu mais recente relatório, que deverá ser apresentado na segunda-feira ao Conselho dos Direitos Humanos, a missão estabelece que a reação de Teerão às manifestações do Inverno passado "marca uma escalada significativa em relação ao passado".

Os investigadores constatam uma intensificação "tanto pela magnitude da violência e dos homicídios como pelos esforços empreendidos para cortar os laços entre as comunidades e com o exterior, pelo recurso a leis repressivas e pelo uso crescente da pena de morte como instrumento de intimidação e controlo".

O movimento de contestação, que tinha começado inicialmente no final de dezembro para protestar contra o aumento do custo de vida, transformou-se rapidamente em amplos protestos antigovernamentais, que atingiram o seu auge nos dias 8 e 9 de janeiro.
As ONG falam de uma repressão que fez milhares de mortos, enquanto o Governo reportou mais de três mil mortes, atribuindo a violência a "atos terroristas" orquestrados pelos Estados Unidos e por Israel.


A missão acusa as forças de segurança de terem "cometido assassinatos a uma escala impressionante nas 31 províncias", tendo os números mais elevados de vítimas sido registados em Teerão, Karaj (a oeste de Teerão), Mashhad (nordeste), Isfahan (centro) e Rasht (norte).

As autoridades tinham também suspendido o acesso à internet durante os protestos e, mais tarde, a partir de 28 de fevereiro — início dos ataques americanos e israelitas contra o país —, mantendo a suspensão durante vários meses.

A guerra, que fez milhares de mortos, desferiu também um rude golpe na economia iraniana.

Desde o início do conflito, o Governo iraniano "intensificou o recurso à pena de morte contra os manifestantes", afirmam os investigadores, apontando que, entre março e agosto de 2026, pelo menos 29 homens foram executados "após julgamentos sumários" relacionados com os protestos."Mais de 70 pessoas, incluindo cinco mulheres e três rapazes, continuam em risco iminente de execução", acrescentam.

O relatório conclui que muitas destas violações constituem "crimes contra a humanidade, incluindo assassinatos, detenções, atos de tortura e outros atos desumanos".

Grupos de defesa dos direitos humanos afirmam que as pessoas que passavam no local estavam entre as vítimas mortais da maior repressão ocorrida desde que os clérigos muçulmanos xiitas assumiram o poder na revolução de 1979. Teerão atribuiu a culpa a "terroristas e agitadores" apoiados por opositores no exílio e por inimigos estrangeiros, como os EUA e Israel.

A investigação salienta que não conseguiu verificar de forma independente o número de mortos, mas acredita que o total de mortos e feridos era provavelmente muito superior aos números oficiais, que indicam 3.038 mortos e 25 mil feridos.


De acordo com o relatório, a resposta do governo aos protestos — incluindo violência e mortes, corte da internet e aplicação da pena de morte — representou uma escalada significativa em relação aos padrões anteriores de repressão da dissidência.

c/ agências 
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